POST DESPEDIDA HOMENAGÍSTICO.
PARA E POR ROBERTA ARABIANE.
A pior coisa de ir embora é a perspectiva de ser esquecido. A pior coisa de ficar é o temor de esquecer quem foi. A Ro, ou Roberta Arabiane para os íntimos, anunciou sua partida ontem. Virou ex-megera. E o meu jeito de me despedir é dizendo que ela não corre o risco de ser esquecida por nós que ficamos. Porque há tanto, tanto, tanto dela, em textos que, nunca, nunca, nunca, vamos esquecer...
RE-CONHECER
Eu sou o que há de outros em mim. Restos de choro e riso, de calor e envergadura, de água e cachaça, de limão e creme dental, de açúcar e carvão. Fragmentos de outros corpos, outros sonhos, outros pecados, outras angústias, outras descobertas. Remendos de tentativas inúteis e triunfais, de fracassos que deram certo, de amanhãs mil vezes recomeçados, de acalantos só, de ventre vazio, de perdidos encontros. Como uma colcha de fuxicos, eu sou o colorido de outros seres cerzido com o arame de amores nem sempre sãos, nunca de todo débeis. Frações de histórias vermelhas, azulejos trincados, músicas de ninar, cerveja barata, roupa suja lavada na rua, sussurros floridos. Amores de construção. Pedaços de vaidade, exibicionismo, pudor, compaixão, sordidez, desvelo, veneração, de medo e rouquidão. Conceitos arruinados, raivas partidas, virtudes desmanteladas, carinhos oferecidos, gargalhadas compartilhadas. Amores de unificação. Essa dureza que vês, cabe na palma de tua mão, por que eu sou o que há de outros em mim. E se não fosse assim, não seria tua.
Eu estou feliz. Eu sei que é egoísmo, mas eu vou dar o melhor de mim. Eu sei que em algum momento eu vou errar, mas eu vou estar tentando acertar sempre. Eu sei que não vai ser fácil, mas nada na minha vida foi fácil. Eu sei que nunca vou me arrepender. Eu sei que estou me preparando para isso há oito anos e que poderia ficar uma vida inteira me preparando e ainda assim faltar tempo, então talvez essa não seja uma má hora. Eu sei que meus dias não serão mais os mesmos, que meu olhar não será mais o mesmo, que minhas mãos não serão mais as mesmas. Eu sei que a única forma de amor no meu peito é o incondicional, então talvez eu não vá ter muita dificuldade de adaptação afinal. Eu sei que é preciso ter paciência e que muitas vezes eu sou ansiosa então além de feliz eu vou me tornar uma pessoa melhor. Mas é um amor tão grande, tão mais grande, tão muito mais grande do que qualquer outro que eu já tenha sentido e eu não quero abrir mão. Eu sei que nunca mais eu vou ser infeliz na minha vida por que é um amor de amar para sempre.
Des-cobrir
Em ti tenho um jardim salpicado de esperanças. Sou toda flores e arbustos e meu sustento de-leito é a seiva da tua carne.
Em ti tenho o perfume de galáxias ainda não descobertas e desde há muito procuradas. Sou o branco e o trovão e amanheço com o cheiro de tuas secreções.
Em ti tenho a imensidão do subterrâneo e a profundidade do que não é perceptível a olhos nus. Sou o suor lamacento dos teus poros escorrendo sísmico até os testículos.
Em ti tenho um corpo-cálice que me liberta. Sou calmaria e mansidão e descubro na íris dos teus olhos a escondida e assustadora visão da fêmea.
Você já amou alguma vez na vida? Já amou tanto que os pulmões começaram a reclamar da ausência de ar, por que seu cérebro simplemente não concatenava nem as tarefas involuntárias quando o ser amado estava perto? E as estranhas se desfalecendo, você percebeu? Bem devagarinho, como uma semente que se insinua através da terra. Você já amou a ponto de esquecer o mais sagrado dos pensamentos? A ponto de morrer cada dia mais um pouco e ir definhando sutilmente com o olhar de perto/longe? Sentiu o peito se rachar como uma jaca podre caindo no chão diante de um olhar do ser amado? Um simples olhar. Não, um simples olhar, não. Um olhar seguido de um sorriso. Sentiu? Você já amou tão desesperadamente que a única coisa que realmente importava era a felicidade do seu amor? Não a sua, a dele. Mas a felicidade dele não é a sua, perguntaria você. Sim, é isso mesmo. Você já amou desse jeito? Já tombou diante do ser amado sem medo do ridículo? Deixou ele ver sua fragilidade e sua feiura? Permitiu que ele chegasse tão perto assim? Você amou alguém até perceber a diferença entre viver e existir? E entre caminhar e pairar, entre olhar e enxergar? Você já amou alguém até se perguntar se conseguiria fazer isso novamente? Já?
Legal! Me solidarizo.
TODO TIRANO NO FUNDO É UM FRACO
Sabem o que acontece quando um merda consegue alguma parcela mínima de poder? Ele faz merda, evidentemente. Mas vocês sabem porquê ele faz merda?
Faz por que ele tem a exata noção do quão ínfimo e pequeno é o seu talento, ainda que inconscientemente. Ele admira a criatividade, o senso crítico, o espírito livre e empreendedor, a liderança natural, a extroversão, o carisma, o bom humor do outro, mas não reconheci em si mesmo a capacidade de desenvolver estas características. E como não é capaz de absorver e expandir as características que admira no outro mas não enxerga em si, ele se ressente. Ele inveja.
Contudo, o merda não sabe que é um ressentido, um invejoso. Eventualmente, ele acha que foi injustiçado por Deus, e não por acaso crê ser injustiçado pelos homens em geral. Por que todos paparicam a Fulaninha se eu sou tão mais legal que ela?! Por que, Senhor, as pessoas fazem tudo que o Sicraninho diz se nem chefe o Sicraninho é?!
O merda não está no mesmo degrau, está alguns degraus abaixo. Sabe disto. Sente isto. Jamais admite isso. E como ele precisa chegar ao mesmo patamar e não reconhece em si qualidades suficientes para subir, a única alternativa é fazer com que os que estão em cima desçam até ele. Só que aqui surge um probleminha: alguns estão muito acima dele e, por mais que ele se estique, não conseguirá alcançá-los. Resta aqueles que estão acima, mas não muito: o merda precisa de companhia.
Ele fará tudo o que estiver ao seu alcance para fazer com que as pessoas mais talentosas, mais inteligentes, mais gabaritadas (mas que não estejam tão longe dele a ponto de não alcançá-las), desçam até o seu nível. Usará de todos os artifícios: humilhação, berro, ridicularização, sátira, egoísmo, opressão, ultraje, vexames morais e até ofensas. Vale jogar qualquer pedra para que o outro não se dê conta da superioridade, para que o outro ache que ele, o merda, é o maior ou, caso não ache, seja obrigado a admitir. Não importa se é forçado: o simples ato de admissão de que ele é o melhor, o mais gostoso, o que tem o pau maior, o mais rico, o mais poderoso, o mais inteligente... basta para o seu ego imaturo se alimentar um pouquinho.
Vocês já notaram que este procedimento sempre ocorre com quem não tem condições de responder a altura? O merda sempre exerce seu poder com quem depende financeiramente dele (e fará tudo pra que está dependência nunca termine), com quem não pode afrontá-lo moralmente (filhos é um bom exemplo), com quem não tem artícios articulados de defesa. O merda sempre ataca alguém que não tem a exata noção de seu valor. Alguém que se acha menos, embora não seja.
Agora o que eu gosto mesmo é ver a cara de um merda quando ele se depara com um trator. Alguém que o enxerga, exatamente como ele é e deixa isto bem claro. É um prazer inenarrável. Quem sabe que é bom não tem necessidade de mostrar isto aos outros, e a si mesmo. É e pronto.
O coraçãozinho dele parou de bater. O meu ainda bate, sem bater.
Todos os textos foram extraídos do site Megeras Magérrimas (www.megeras.com), arquivos de 2003 a 2006
Vai com Deus, linda.