Sobre o medo
Da minha mãe herdei sua mais admirável qualidade: a coragem. Aliás, nela, como em mim, acho que a coragem ganhou proporções irresponsáveis. Somos, as duas, temerárias, imprudentes, atrevidas. Aquele tipo louco que não tem medo porque, em muitas situações, não tem noção do perigo. Dela ouvi, por mais tempo do que consigo lembrar, filha, só tenho medo dos castigos de Deus - e, mesmo assim, dos fortes, porque os pequenos eu encaro.
Minha mãe corajosa, temerária, louca fez coisas de que eu preciso me lembrar o tempo todo, para lembrar o quanto ela, apesar do milhão de diferenças que temos, é admirável. Lembro da vez que o carro dela não quis pegar, pela enésima vez naquele mês, e ela avisou antes de conseguir sair atrasada para a reunião que o carro problemático, daquele dia, não iria passar. Batata. Chegou a noite e ela, sorriso rasgado no rosto, entrou na garagem com um Gol verde metálico bem clarinho, coisa mais linda, ainda mais se comparado com aquela Brasília verde abacate com que saiu para trabalhar. Tem também a vez que meu pai viajou a trabalho e ela, grávida de 3 meses, recém-casada, conseguiu empréstimo para dar entrada num apartamento, de tal modo que, na chegada da viagem, já tinha rolado mudança dos móveis da casa da sogra para o primeiro ap dos pombinhos. Minha irmã mais velha, noiva de um cara de família tradicional e entojada, ganhou um casamento para 400 pessoas numa época em que a grana estava curtíssima, porque nossa mãe-super-heroína deu um jeito em tudo para não deixar nenhum sonho na mão.
Tantas, tantas, tantas histórias de coragem, de garra, que me dão identidade de um jeito especial. Deus sabe, há poucas raízes tão lindas, tão firmes, tão fortes quanto essas. Dias atrás ouvi: por que você não pára nunca, por que não se dá um tempo entre um objetivo e outro, por que está sempre lutando desvairadamente por alguma conquista? A resposta está guardadinha aqui em mim: sou quem sou porque sou filha da minha mãe.
Mas, esse não é post da coragem. É o post do medo e, em alguma medida, da covardia.
Minha mãe corajosa, temerária, louca fez coisas lindas a vida inteira por todos o que estavam ao redor dela. Mas, tão pouco por si mesma. Abriu mão da faculdade de arquitetura, que era seu sonho. Enterrou-se viva num casamento sem amor, cheio de lembranças dolorosas e tristes. Está, há mais de vinte anos, muito acima do peso, logo ela que era linda de tirar o fôlego. Jamais visitou os lugares distantes que sempre sonhou conhecer. Ah, minha mãe sempre teve tanta garra, mas fez tão pouco por ela mesma. E, com ela parecendo tanto, em tantas coisas, sinto medo, muito medo de também nisso me assemelhar. O maior medo. Assombrador, aterrorizador e petrificante. Não conseguir ser corajosa, destemida, temerária, imprudente para realizar meus próprios sonhos. Medo dessa tendência de insistir nas mesmas escolhas erradas de sempre e um dia descobrir que elas me impediram de ser quem eu poderia ser, de viver o que eu poderia viver. Medo de não aprender a separar amor e doença. Medo de confiar nos meus instintos, quando eles já erraram tão violentamente em relação a certas percepções. Medo, medo, medo.
Coragem. Medo. Coragem. Medo. Quanto desequilíbrio, quanta simetria.