Porque eles não combinam mais com quem você é
Então você, mulher moderna, bem resolvida, independente, socialmente consciente, antenada com tendências sociológicas, filosóficas, místicas e talz, resolveu aderir ao feng shui. Respirou fundo, ficou rezando em silêncio e se desfez daqueles 5 pares de sapatos que foram seus companheiros por loooooooongos períodos. Justamente aqueles que estiveram nas melhores festas (possivelmente se acabaram com você na hora de dançar e os males espantar) e nos piores momentos (possivelmente guiaram você, de cabeça erguida, para a saída depois de mandar alguém para aquele lugar). O que são, contudo, essas lembranças perto da sensação de estar desocupando espaço para coisas novas entrarem na sua vida? Abraço carinhoso, troca de olhares significativas e você manda os sapatinhos embora porque não é boba nem nada.
Surpresa com o desapego que descobriu escondido em alguma entranha profunda de si mesma, agora as grandes faxinas - em armários de cozinha, guarda-roupas, escritório, etc - são um hábito comum em sua vida. Quanta maturidade, quanto desapego. Puxa vida, você está pronta para a alta na terapia. Passa mesmo a se achar uma mistura requintada de Sarah Jessica Parker com Madre Teresa de Calcutá. Lindo, lindo mesmo. Até que, num determinado momento, vem a pergunta: o que lhe impediu de se desfazer daqueles sentimentos e crenças que se tornaram inúteis em sua vida e passaram a ficar entulhados como tranqueiras dentro de você? Os exemplos são tão numerosos que você poderia passar diaaaaaaaaaaaaaaaaaas contando.
A mania de achar que seu método de trabalho (deixar tudo para a última hora) é terrível, apesar de você jamais ter perdido um prazo, nem tampouco ter deixado a qualidade cair. A crença de que precisa ser a "patroa" para algum homem, apesar de você ter aprendido a ser dona de si mesma há tanto tempo. Aquele amor voraz e incadescente, mas solitário, que não combina em nada com o que você se descobriu digna de receber da vida. O medo de não ser aprovada por seu desempenho, quando você já se deu conta de que shit happens e, tantas vezes, o seu melhor é suficiente para alguns mesmo. Aquela tendência ao vitimismo, absolutamente incompatível com a coragem que você descobriu em si mesma nos últimos tempos.
Então você, mulher moderna, bem resolvida, independente, socialmente consciente, antenada com tendências sociológicas, filosóficas, místicas e talz, resolveu aderir ao feng shui. O que te impede de abrir mão desse modo de pensar e sentir que não combina, absolutamente, com quem você descobriu ser? Ou, de modo muito mais simples, por que o exercício do desapego somente funcinona para coisas materiais? Pára tudo. Fica imóvel. Pensa. Reflete. Be a man. Porque as tranqueiras acumuladas num armário são fichinha perto daquelas que estão amontoadas dentro de você.
Vai lá. Faz o inventário completo. Separa o joio do trigo. E prepare-se para abrir mão de tudo o que está aí dentro e você não vai mais precisar. Talvez você precise do ritual da despedida. Olhar todos esse sentimentos e crenças nos olhos, dizer-lhes que, lamentavelmente, dentro de você já não há espaço para tranqueira e ir embora, de cabeça erguida, em cima do salto daquele sapato podre de chique recém adquirido. Mais precisamente aquele par que agora ocupa o espaço deixado na última arrumação do armário... sacou?