Tempo.
Em termos muito práticos.
A idéia começou a se formar, por aqui, há uns dois meses. E agora ganhou contornos definitivos. Vivi, nos últimos três anos, uma vida tão corrida, mas tão corrida, com uma carga de trabalho tão absurda - no melhor estilo três expedientes por dia, três empregos por vez, que o significado do tempo, para mim, ganhou outra dimensão.
Por ter tantíssimas coisas para fazer, meu tempo parece um pouco a história da multiplicação dos pães ou mutação esquisita da lei da física segundo a qual dois corpos não podem ocupar, ao mesmo tempo, o mesmo lugar no espaço.
Como todos, estou sujeita a dia com duração de 24 (vinte e quatro) horas. Algumas delas, precisam ser dedicadas ao descanso, e mais especificamente ao sono, pois ainda não descobrir um jeito de sobreviver ao meu ritmo, sem conseguir dormir. Mas, esse ritmo me fez diminuir as horas dormidas. Agora são menos. Se antes ficava um caco com menos de oito horas de sono, hoje é raro o dia em que eu consigo chegar a tudo isso, mesmo que seja fim de semana, mesmo que eu possa dormir mais. Minha média desceu para seis horas, quando, empolgada com algum livro (que só consigo ler na cama), não acabo indo dormir mais tarde e diminuindo para quatro ou cinco horas. Outras horas são dedicadas à alimentação. E têm sido horas porque, para praticamente todas as refeições, saio de casa. O estresse mina qualquer inspiração para culinária, portanto, não sobra outra opção. Quase todas as outras janelas sobrantes têm sido preenchidas com trabalho, que vai desde enviar e-mail, até orientar a diarista, acertar os detalhes chatos da viagem de férias, fazer compras - e orçamentos - para casa, falar com clientes, escrever, estudar alemão para prova escrita e oral, etc.
Claro. Há espaços, no meio disso tudo, para fazer nada. São eles compartilhados com namorado, na maior parte. E isso tem sido um paliativo. Do lado dele, tenho conseguido relaxar um pouquinho, ficar bem, esquecer da correria. Mas, em mais de uma ocasião, dormindo com ele, acordei no meio da noite, pensando em coisas que precisava fazer no dia seguinte, em outras que estavam pendentes, enfim, com ataques sérios de ansiedade, que se transformaram em horas de insônia.
Sim. Hoje, há pouco tempo, e muita coisa para fazer com ele. E isso me angustia, e provavelmente tudo melhorará no próximo ano. Mas, enquanto isso, porque sobreviver é preciso - como navegar, preciso fazer malabarismos.
Por isso, falo no celular no trânsito, para contrariedade minha (virei colecionadora de multas por conta do hábito nefasto) e de outros (namorado fica à beira de um ataque nervoso quando uso o celular no trânsito). Entre uma atividade e outra, para "relaxar", respondo mensagens por e-mail. Faço relatório escrito de todo caso novo em que preciso atuar - para o caso de vir a precisá-lo depois e me ver na situação de analisar toda a documentação de novo. Deixei de lado, por tempo indeterminado, os pensamentos angustiantes ou dolorosos, que me fazem perder (tempo e) o caminho. E me estresso absolutamente com quem, no meio disso tudo, não consegue respeitar minhas limitações quanto ao tempo.
Sim. Hoje, há pouco tempo, e muita coisa para fazer com ele. E isso tem sido difícil - além de me custar caro demais, mas há de melhorar. Antes que eu resolva chutar algumas coisas, ou absolutamente tudo, para o alto, e ver o que acontece.