Talvez, alguns porquês não sejam, afinal, importantes
Esse ser com tendência para rebeldia e insubordinação que habita aqui dentro usualmente não aceita respostas prontas, sem explicação, sem discussão. Porque sim e porque não, evidentemente, nem pensar. Desde sempre, eu preciso entender os porquês. Para me convencer.
O que hoje quero chamar de compulsão pelos porquês influenciou algumas escolhas importantes. A primeira, e mais elementar, foi a religiosa. Apesar de criada no Catolicismo, e de ter participado de todos os rituais dessa religião - desde o batismo até a crisma - não consegui virar uma praticante, apesar de me considerar pessoa de muita fé. A razão não poderia ser mais pontual: a religião católica não me dá os porquês necessários para que eu possa acreditar plenamente nos seus fundamentos e, mais do que isso, para poder entender a vida. Fui buscar na doutrina espírita, Kardecista, esses porquês - e os encontrei ou, pelo menos, os tenho encontrado ao longo dos últimos dez anos. O espiritismo traz respostas que eu consigo entender - e praticar (ou tentar praticar) - porque consegue (me) explicar alguns porquês importantes.
Essa necessidade de compreender os porquês também me levou a algumas escolhas profissionais importantes. Desde a faculdade, sempre fui insistentemente questionadora. Nunca aceitei - ou fixei - os conceitos técnicos que me foram ensinados, se eles, para mim, não faziam sentido. Também os professores, coitados, precisavam me convencer, tarefa que, para alguns deles, deve ter sido prazerosa, mas para outros, certamente, deve ter sido um pé no saco. E, com o passar do tempo, desenvolvi intolerância a chefes ditatoriais, do tipo que pensa que o poder, por si, se justifica. Sou adepta de uma frase atribuída a Freud, mais ou menos assim: não basta poder, tem de convencer. Pelo menos uma vez num passado recentíssimo (isto é, há poucos meses), me desliguei de atividades profissionais para não precisar lidar com os tipos que acreditam ser desnecessário discutir os porquês.
Sem dúvida, é a busca de porquês que me mantém, há mais de cinco anos, em processo terapêutico, quando a tendência natural teria sido parar depois de resolver algumas questões, a exemplo do que fazem tantíssimos pacientes.
Estou longe de achar, contudo, que a compulsão em questão é uma qualidade ou, de algum modo, melhora a vida. Ser questionador é um passo importante, na opinião da grande maioria, para a chatice. Não tenho nenhuma ilusão quanto a isso. Quase todos os meus colegas de faculdade, para dar um exemplo, odiavam quando eu começava a fazer perguntas. E fui considerada impertinente, também, por vários chefes e colegas de profissão, para quem eu deveria assumir o papel de aceitar, sem questionar, algumas idéias ou decisões. Mas, não é disso que quero falar, apesar de confessar um certo arrependimento por ter, tantas vezes, questionado quando seria melhor - ou mais fácil - ter calado.
O que tem me incomodado, nessa busca incessante dos porquês, é o poder paralisante que ela, às vezes, tem sobre mim. Quem é como eu, certamente, já passou por isso.
Tantas vezes, por não entender algum fato, me vejo incapaz de aceitá-lo ou superá-lo. Foi assim com o homem que mais amei na vida. Eu encontrei nele todas as qualidades - e até defeitos - que a mim pareciam essenciais para viver do lado de alguém. Por um período que durou quase dois anos, a vida parava toda vez que ele estava perto. Eu vivia num permanente estado de encantamento ou, para dizer de um jeito bonitinho, minha barriga acabou virando um borboletário. E, verdade (imparcial, juro, agora, depois que tudo acabou) seja dita, ele também agia de modo a me fazer acreditar que eu o complementava. Não havia dia em que não nos falássemos pelo menos uma vez, e durante um certo tempo compartilhamos quase todos os momentos importantes, decisivos para nossa vida. Apesar disso, num belo dia, descobri que não íamos envelhecer juntos. Poupo-lhes de todos os detalhes dessa descoberta, para dizer que fiquei presa nessa história muito mais tempo do que deveria. Simplesmente, não me desligava porque não conseguia entender o porquê de não dar certo quando tudo parecia conspirar para que desse. Passei mais ou menos um ano com essa pira em mente, contrariando todos os conselhos dados por amigas preciosas. Já faz dois anos, o luto passou, eu estou numa outra história romântica. Portanto, estou em condições de afastamento adequadas para entender que, naquele momento, o melhor teria sido parar de perguntar os porquês e seguir adiante, sem olhar para trás. Ou, para falar em termos menos poéticos, tocar o f*da-se para os porquês e me concentrar na necessidade de me afastar completamente do cara.
Preciso dizer que, infelizmente, foram tantas situações parecidas até hoje. Tantíssimas as vezes em que me perdi, procurando os porquês. E percebi que nem sempre compensa a relação custo-benefício nessa busca. Entender os porquês não ajuda a gente a superar a tristeza, a decepção, a raiva, a dor por trás das coisas que acontecem. Até porque, já diria meu terapeuta, o universo é caótico e tanto acontece sem nenhum porquê. Até porque o porquê, como dizem ser a vingança, muitas vezes, é um prato que somente temos condições de comer frio.
Já são trinta e três anos vivendo. E o passar do tempo, ironicamente, tem me ensinado a desaprender algumas coisas, pra ser mais feliz. Uma delas, sem dúvida, é que, em algumas situações, melhor mesmo é reagir, seguindo adiante, mudando o que é preciso, fazendo alguns sacrifícios, sinalizando muito bem os buracos para não cair de novo. Pois, talvez, alguns porquês não sejam, afinal, tão importantes.